O Significado Bíblico de Regeneração

O mesmo capítulo terceiro do evangelho de João em que Jesus declara a Nicodemos que o novo nascimento (regeneração) vem de cima e é obra divina, contém também a afirmação de que a salvação é por fé, pois nos versículos 14 e 15 o Senhor diz: “E do mesmo modo porque Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna.” (Jo 3.14,15). O versículo 18 repete o mesmo ensino nos mesmos termos e mais amplos ainda, dizendo: “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus”.

E também, na mesma conversa com Nicodemos Jesus declarou o motivo de serem regenerados todos os que crêem no Seu nome: o fato de Deus ter amado o mundo de tal maneira que O entregou para livrar da morte eterna os que viriam a ser Seus filhos pela fé, e ao mesmo tempo conceder-lhes a vida eterna (Jo 3.16).

Deste modo, fica claramente evidenciado que a regeneração é parte da salvação pela graça, mediante a fé, em razão do amor de Deus pelos pecadores. A fé em Cristo dá ao crente justificação, regeneração e santificação. Aqui, estudaremos mais especificamente, a regeneração.

A regeneração ou novo nascimento pelo Espírito determina o destino eterno da alma que deseja ir para o céu. Aquele que foi justificado, por ter tido todos os seus pecados perdoados e sido aceito inteiramente por Deus, quando se converteu pela fé em Jesus, recebeu também simultaneamente com a justificação uma nova natureza, ou novo coração, ou vida eterna, ou novo nascimento (regeneração), pela habitação do Espírito Santo, e tudo isto, simplesmente pela sua fé em Cristo.

João diz no início do seu evangelho: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber: aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.”. Com isto quer dizer, que homens que são gerados pelos homens morrem; mas a natureza que é gerada pelo Deus eterno é também eterna. Jesus se referiu a isto quando falava acerca do novo nascimento a Nicodemos: “O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito, é espírito. Não te admires de eu te dizer: Importa-vos nascer de novo.” (Jo 3.6,7). Por isso Paulo afirma em I Cor 15.50: “Isto afirmo, irmãos, que carne e sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção”.

Ao falar de regeneração em I Pe 1.23, o apóstolo Pedro afirma no versículo anterior (22) que a alma do crente foi purificada pela sua obediência à palavra da verdade (evangelho). Sabemos que isto é uma referência à fé em Jesus Cristo no ato da conversão, pois há de fato um trabalho do Espírito no sentido de purificar-nos do pecado já nesta ocasião, e este trabalho para nos manter puros pela santificação do Espírito deve prosseguir na vida de cada crente, ou pelo menos deveria, conforme é da vontade de Deus, mediante a nossa consagração. Assim, a alma é conservada e purificada em Jesus, e não destruída. A alma do crente não perecerá porque a vida de Deus nele, a nova natureza, é quem vivifica a sua alma e a conserva, de modo que ela não perecerá, ao contrário das almas dos que não têm a Cristo, porque serão condenadas a permanecerem para todo o sempre separadas de Deus, o que é a morte eterna, ou perecer no inferno.

A primeira ou velha natureza morre porque a sua semente era corruptível. Por isso tanto o corpo quanto a alma (ou espírito) do homem sem Cristo se perdem. Mas os que têm a Cristo terão o corpo ressuscitado depois da morte, e sua alma é livrada da separação eterna de Deus (morte espiritual). A segunda ou nova natureza não foi criada de semente corruptível, mas incorruptível, pela Palavra de Deus, pela qual Deus tem infundido em nós a sua própria vida, através da habitação do Espírito Santo, como se afirma em I Pe 1.23,24, que fomos regenerados, isto é nascemos de novo ou recebemos uma nova natureza mediante uma semente incorruptível que vive e é permanente, e que não morre como a natureza carnal ou primeira natureza, que é como a flor da erva, que murcha e morre.

Uma Palavra incorruptível produz uma vida incorruptível. O filho de Deus em sua nova natureza nunca morre. Ele não pode ver a morte. Cristo está nele, e Ele é a ressurreição e a vida. (Lc 20.36; Jo 3.16; 5.24; 6.47,57,58; 8.51; 10.28; 11.26; II Tim 1.10; I Jo 5.13).

A nova natureza não pode morrer porque o Espírito Santo sempre a supre com vida. Ele concede mais graça, graça sobre graça. O crente se encontra numa união vital com Cristo. Ele afirma que assim como Ele vive, nós viveremos também. Ele afirma que aquele que nele crê nunca perecerá. Tudo isto é uma referência à onipotência divina para preservar a nova vida, ou nova natureza que obtivemos pela fé. O homem nascido da carne, não regenerado, morrerá, mas o novo homem nascido do Espírito (regenerado) nunca morrerá, por estar unido Àquele que é a própria fonte da vida. Esta nova vida se alimenta de Cristo, e vive somente em Cristo. O trabalho de santificação do Espírito Santo é principalmente mediante a palavra do evangelho que prega a Cristo e este crucificado para apagar todos os nossos pecados. A pregação no Espírito sobre as verdades relacionadas a Cristo, santificam os crentes e regeneram os ímpios, porque é o alimento da nova criatura. Assim como o próprio Jesus afirma que aquele que dele se alimentar, por Ele viverá (Jo 6.50,51,57). Por isso devemos deixar a natureza divina viver em nós, mortificando a natureza terrena (Col 3.5), deixando queimar a centelha da natureza que Deus nos deu no novo nascimento. Isto é parte do andar não segundo a carne, mas segundo o Espírito.
Quando a Bíblia fala portanto de mortificação da natureza terrena (Col 3.5), não se refere à destruição da alma, mas à sua purificação do pecado, pela destruição das obras da carne pelo Espírito, quando nos sujeitamos a Deus, e andamos na comunhão com Cristo. A santidade que é infundida pelo Espírito e que se manifesta na nova natureza, purifica a nossa alma do pecado, e assim temos comunhão com Deus e com nossos irmãos em Cristo, com um coração puro.

Somos um só espírito com Cristo (I Cor 6.17; 10.16,17); isto significa que a nossa natureza humana está unida à natureza divina, sem que a nossa personalidade seja anulada, de forma que quando o nosso espírito está purificado do pecado isto se deve ao fato de estar prevalecendo em nós o poder e influência da natureza divina, e quando se dá o contrário, quando estamos sendo vencidos pelo pecado, é porque temos permitido o predomínio da nossa natureza terrena.
Jesus mesmo exaltado na glória ainda possui a natureza humana, tanto quanto a divina. É perfeito homem e perfeito Deus. Como em sua natureza humana nunca habitou o pecado, tudo o que Ele fez e ainda faz, foi e é sempre realizado com motivos e atos santos e perfeitos por toda a sua pessoa, que é tanto humana quanto divina.

Quanto a nós os que cremos, que somos co-participantes da natureza divina (II Pe 1.4), tendo assim, também, duas naturezas, a humana e a divina, no entanto, agimos e pensamos como uma só pessoa. Quando acertamos, não foi somente a natureza divina que acertou, mas nós acertamos. Quando erramos, não foi somente a natureza terrena que errou, mas nós erramos. É o nosso espírito que erra ou acerta, que ama ou odeia, que vive no pecado ou em santidade, estando sob a influência destas duas naturezas, a humana e a divina. Se estamos nos fortificando na graça de Jesus, é a influência da natureza divina que será mais forte em nós, e o nosso espírito será portanto purificado e viverá em santidade. Se, ao contrário dispomos os nossos membros para a prática do pecado e ao amor ao mundo, então quem prevalecerá sobre o nosso espírito será a natureza terrena, e em vez de vivermos em santidade de vida, viveremos na prática do pecado.

O crente ganhou uma nova natureza na regeneração, a saber, a divina, e independente de ele santificar-se ou não, estas duas naturezas sempre estarão empenhadas num conflito permanente enquanto estiver neste mundo (Gál 5.17). E aqui cabe citar as palavras de J.C. Ryle quanto a isto: “A santificação, ainda, é uma coisa que não evita que o homem tenha uma grande quantidade de conflitos espirituais em seu interior. Por conflito eu me refiro à luta dentro do coração entre a velha natureza e a nova, a carne e o Espírito, que são encontrados juntamente em cada crente. (Gál 5.17). Um profundo senso desta luta, e uma vasta quantidade de desconfortos mentais que resultam disto, não são a prova de que o homem não está santificado. Ao contrário, eu creio, que eles apresentam os sintomas de sua condição saudável, e provam que nós não estamos mortos, mas vivos. Um verdadeiro crente é alguém que não tem somente paz de consciência, mas guerra dentro de si. Ele pode ser conhecido por sua luta tão bem quanto por sua paz. Ao dizer tudo isto, eu não esqueço que eu estou contradizendo a visão de alguns bons crentes, que afirmam a doutrina chamada “perfeição sem pecado”. Eu não posso apoiá-los. Eu creio que o que é dito está confirmado por Paulo no sétimo capítulo de Romanos. Eu recomendo o cuidadoso estudo deste capítulo a todos os meus leitores. Eu fico completamente satisfeito que ele não descreve a experiência de uma homem não convertido, ou de um jovem e instável crente, mas de um velho e experimentado santo na íntima comunhão com Deus. Eu creio além disso, que o que eu digo está provado pela experiência de todos os mais eminentes servos de Cristo que têm vivido. A plena prova é para ser vista nos seus diários, suas autobiografias, áridas de suas vidas. Crendo em tudo isto eu nunca hesitarei em dizer às pessoas que o conflito interior não prova que o homem não é santo, e que eles não devem pensar que não são santificados porque eles não se sentem inteiramente livres de sua luta interior. Tal liberdade nós teremos indubitavelmente no céu, mas nós nunca nos alegraremos nisto plenamente neste mundo. O coração do melhor crente, mesmo no que tem de melhor, é um campo ocupado por dois exércitos. Embora batizados e nascidos de novo em Cristo, nós falhamos em muitas coisas, e se nós dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós”.

A nova natureza, em razão deste conflito permanente com a velha natureza, não pode garantir que sejamos perfeitos neste mundo, como podemos observar nas seguintes palavras do mesmo J. C. Ryle: “A santificação, ainda, é uma coisa que não pode justificar o homem, e mesmo assim isto agrada a Deus. Isto pode parecer surpreendente, embora isto seja uma verdade. As mais santas ações do mais santificados crentes que jamais têm vivido são todas mais ou menos cheias de defeitos e imperfeições. Eles têm errado de um modo ou de outro, em seus motivos ou são falhos em suas ações, e em si mesmos não são nada melhores do que merecedores da ira e condenação de Deus. Supor que algumas ações podem suspender a severidade do juízo de Deus, expiar o pecado, e trazer méritos para irmos ao céu, é simplesmente absurdo. “Por obra da lei nenhuma carne será justificada”. “Nós concluímos que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei.” (Rom 3.20-28). A única justiça que nos faz capazes de comparecer diante de Deus é a justiça de um outro, a saber, a perfeita justiça de nosso Substituto e Representante, Jesus Cristo, o Senhor. Sua obra, e não nossas obras são o nosso único direito ao céu. Isto é a verdade que nós deveríamos estar prontos a morrer para mantê-la. Por tudo isto, entretanto, a Bíblia distintamente ensina que as ações santas do homem santificado, ainda que imperfeitas, são agradáveis à vista de Deus. Com tais sacrifícios Deus se compraz (Hb 13.16). Obedecei vossos pais, pois isto é agradável a Deus (Col 3.20). Fazemos diante dele o que lhe é agradável (I Jo 3.22). Nunca deixe isto ser esquecido, porque isto é uma muito confortável doutrina. Como os pais se agradam com os esforços de seus filhos para agradá-los, ainda que imperfeitos, assim nosso Pai no céu agrada-se com a pobre performance de Seus filhos, que se esforçam para fazer sua vontade. Ele contempla a motivação e a intenção de suas ações, e não meramente a quantidade ou qualidade. Ele os respeita como membros de Seu amado Filho, e por Sua causa.”.

O novo nascimento é uma transformação radical: por meio dele recebemos a nova natureza que nos faz amar o que aborrecíamos e aborrecer o que amávamos contra a vontade de Deus. Também abre em nós um novo caminho, de novas perspectivas, faz diferentes nossos costumes, nossos pensamentos e nossas palavras; o novo nascimento faz com que se cumpram em nós as palavras de II Cor 5.17. Quando nós nascemos de novo nós recebemos uma natureza que é indestrutível e não pode ser enfraquecida pelo envelhecimento. É por isso que Paulo diz que o homem interior se renova de dia em dia (II Cor 4.16). Só seria possível que a nova natureza morresse caso o próprio Deus morresse (Jo 6.57).

O trabalho de Jesus é o de edificação do seu corpo, que é a igreja, trabalhando através da nova natureza. A vida em abundância que ele veio trazer aos que crêem no seu nome está sendo edificada em nós, mediante o Espírito Santo, pelo despojamento da velha natureza, e pela implantação das virtudes referentes a Cristo (Ef 4.22-24 – este é o trabalho da santificação). A regeneração é o recebimento da nova natureza. A santificação é o nosso amadurecimento pela operação desta nova vida, que também costumamos chamar de crescimento espiritual. Daí sermos exortados a vivermos em novidade de vida, a saber, segundo a nova natureza que recebemos de Deus, e não segundo o velho homem, ou velha natureza (Rom 6.4; 8.4, 12-14; II Cor 5.17). É por isso que o crente deve orar sem cessar, meditar na Palavra, adorar a Deus, para que ande no Espírito, e não na carne. Pois a sua fé é o que vence o mundo. A sua vitória é a vitória de Cristo sobre a sua natureza carnal. A sua vitória não pode portanto ser alcançada estando fora da comunhão com Cristo. Ainda que o nosso espírito aprenda muitas coisas na caminhada com Deus, nenhuma delas poderá efetivamente ser colocada em prática a não ser por um caminhar na luz em comunhão com o Senhor, porque é pelo poder da Sua graça em nós que o nosso espírito é purificado e dotado de poder para fazer o que Lhe seja agradável.

Alguns dizem que o pecado reina na carne do homem, em seu corpo físico, mas não no seu espírito, que segundo eles é perfeito e não pode pecar. Isto não é verdadeiro porque o espírito do homem também está sujeito ao pecado, daí a exortação de I Tes 5.23 e II Cor 7.1. Devemos lembrar dos poderes do espírito e dentre estes a imaginação, o pensamento e a vontade, que estão inteiramente contaminados pelo pecado. Quem não peca no crente é a nova natureza, obtida na regeneração, isto é, no novo nascimento. O que existe é um trabalho de purificação progressivo do espírito humano a partir da conversão, pela nova natureza recebida do alto, a saber, o novo nascimento do Espírito Santo.

Não há nenhuma desobediência na nova natureza. Na nova natureza não há qualquer mancha do pecado. A nova natureza que Deus tem dado ao crente nunca erra, morre ou transgride. Isto porque o que é nascido (a nova natureza) de Deus é como Ele, santo, puro e imaculado, separado do pecado. A nova natureza está destinada a nos amadurecer na perfeita imagem de Deus que nos criou em Jesus Cristo. É pela obediência, em santificação à vontade Deus (andar na luz, guardar os mandamentos, ter fé em Jesus, orar, adorar etc), que esta nova vida que está no crente pela habitação do Espírito, se manifesta gerando comunhão e operando crescimento espiritual.

A glória tem passado para sempre da natureza terrena. Esta é a sua própria condenação. É loucamente orgulhosa. O coração é inteiramente corrupto. Repudiemo-la, e que Deus nos dê uma nova, na regeneração, porque a velha jamais poderá ser melhorada. Está irremediavelmente insana, decrépita e corrompida.

Além disso, é completamente certo que a natureza terrena não pode ser melhorada, porque temos o testemunho dos muitos que têm tentado tal cousa e sempre têm fracassado. Temos visto alguns que tratam de refrear sua natureza, pessoas de temperamento violento, que intentam emendar-se um pouco e o conseguem, porém logo em seguida voltam a agir como sempre, e como o fogo não pode apagar-se queima seus ossos até torná-los em cinzas, deixando em seus corações um resíduo de cinzas de vingança (Pv 22.24). Há outros que intentam fazer-se religiosos, e somente conseguem converter-se em algo monstruoso, porque suas pernas não são iguais e caminham capengando no serviço de Deus; são criaturas disformes e desobedientes, e todos aqueles que os observam podem descobrir prontamente a inconsistência de sua profissão. Asseguramos que tentarão em vão mudar sua pele aplicando-lhe cosméticos; é como se o leopardo tentasse livrar-se de suas manchas: nunca poderão encobrir a ruína de sua natureza terrena mediante esforços religiosos.

A experiência dos que tentam aperfeiçoar-se na carne, isto é, através de uma reforma da velha natureza, pode ser expressada por meio destas palavras: “Ah! eu sei de que forma tenho tentado muitas vezes reformar-me sem poder dar um passo adiante. Quando começava, sentia como que um demônio dentro de mim, e quando terminava, o número havia aumentado a dez; em vez de ser melhor, o que fazia era piorar, e os demônios de minha própria justiça, da confiança em mim mesmo, do orgulho, e outros muitos, faziam em mim sua morada. Quando estava ocupado varrendo minha casa e adornando-a, eis que aquele de quem eu queria livrar-me saía por uma curta temporada para em seguida voltar acompanhado de outros sete espíritos piores, fazendo de mim sua morada.”. Esta narrativa não quer afirmar que um crente autêntico fique possuído de demônios, mas é como se ficasse à mercê deles quando não anda pela fé, no Espírito Santo.

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Ah! meus queridos amigos, tentem reformar-se e descobrirão sua impossibilidade, ainda que o conseguissem, não seria esta a obra que Deus exige; Ele não quer reformas, senão renovação. Ele não deseja um coração melhor, senão um coração novo. Como se diz em Ez 36.26,27: “Dar-vos-ei coração novo, e porei dentro em vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro em vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis.”. Deus está removendo de nós as coisas corrompidas pelo pecado herdadas do primeiro Adão, e implantando a vida de Seu Filho, o último Adão. É por isso que somente o andar no Espírito nos habilita a observarmos e cumprirmos os mandamentos de Deus. Somente quando se está cheio do Espírito é que se tem uma verdadeira inclinação para tudo o que é santo, honesto, puro e verdadeiro. Fora disto, o que se tem é esforço humano legalista que sempre há de falhar em pequenas ou grandes coisas, conforme a disposição da hora do coração. Quando se está em comunhão real com Deus sempre se devolve o troco em dinheiro que é dado a mais, sempre se ama o inimigo, nunca pensamos que o bem que nos tem sobrevindo é devido à nossa própria bondade ou fidelidade, mas tudo atribuímos à graça de Jesus, porque de fato, tudo isto é fruto da sua graça em nós. Assim, apesar de nosso espírito não ter sido removido quando cremos em Jesus, é a plenitude e a manifestação desta nova vida que recebemos na conversão, que o habilita a pensar, agir e querer conforme a vontade de Deus.

Afirmamos que o homem não é regenerado mediante seus próprios esforços. Poderá reformar-se nobremente. Poderá livrar-se de muitos vícios, muitas concupiscências, porém não há quem possa por seu próprio poder nascer em Deus. Por mais que lute, não conseguirá o que não está em seu poder. Todavia mesmo que pudesse nascer de novo por suas próprias ações, não iria para o céu, porque haveria violado uma das condições para tal, qual seja, a de nascer do Espírito Santo, conforme Jesus disse a Nicodemos, condição esta sem a qual não pode ver o Reino de Deus. Isto não é alcançado pelos esforços da carne, a saber, a altura do novo nascimento que é obra exclusiva do Espírito de Deus.

Concluindo, podemos afirmar, segundo tudo o que já foi dito anteriormente, que ao dizer que o trabalho do Espírito não é de reforma do velho homem, mas de renovação mediante a nova natureza recebida do alto, que isto não significa a eliminação do espírito (ou alma) humano, mas a sua vivificação (estava morto antes da conversão) e purificação pelo Espírito Santo. A regeneração, não é portanto uma obra de aperfeiçoamento do homem pelo poder do próprio homem. A continuação do trabalho de purificação realizado por Deus, iniciado na conversão, quando ocorreu a regeneração (novo nascimento), deverá prosseguir com o processo da santificação, no qual o homem deverá cooperar também com a operação do Espírito Santo, esforçando-se na prática das boas obras e na consagração de sua vida à oração, prática da Palavra, adoração pública e particular, testemunho da fé em Cristo e todos os demais meios de graça que são necessários para que tenha o coração purificado pelo lavar renovador do Espírito Santo, que é o prosseguimento do lavar regenerador iniciado na conversão (Tito 3.5).

“Ora, Deus que conhece os corações, lhes deu testemunho, concedendo o Espírito Santo a eles, como também a nós nos concedera. E não estabeleceu distinção alguma entre nós e eles, purificando-lhes pela fé os corações.” (At 15.8,9) – referência à REGENERAÇÃO quando ocorreu a conversão de Cornélio e sua família.

“Tendo, pois, ó amados, tais promessas, purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne, como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus.” (II Cor 7.1) – Palavra dirigida por Paulo aos crentes coríntios. Já haviam sido regenerados e experimentado a purificação do pecado na conversão. Agora são incentivados a prosseguirem na citada purificação através do processo da SANTIFICAÇÃO.

“Assim, pois, se alguém a si mesmo se purificar destes erros, será utensílio para honra, santificado e útil ao seu possuidor, estando preparado para toda boa obra.” (II Tim 2.21). Mais uma vez fica evidenciada a necessidade de o crente tomar a iniciativa de se apresentar a Deus e determinar-se em obedecer a Sua vontade, para que possa ser santificado por Ele. Se o crente não buscar a santidade, a purificação do seu coração, pela operação do Espírito através da nova natureza recebida na conversão, ele não a alcançará. Este aperfeiçoamento jamais será alcançado em sua total plenitude e permanentemente, enquanto estivermos neste mundo, mas ele pode ser visto maior em uns do que em outros, porque é como uma escada que subimos, de fé em fé, e de glória em glória. As boas obras são importantíssimas para tal progresso em santidade, assim como o cultivo das virtudes ou graças passivas: a longanimidade, a mansidão e o domínio próprio.

“o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniqüidade, e purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras.” (Tito 2.14). A regeneração é uma necessidade para que Deus possa cumprir Seu propósito eterno de fazer-nos santos assim como Ele é santo. Para tanto, é necessário a purificação de nossas almas, pelo trabalho do Espírito Santo, e nosso empenho na busca da santificação.

“Se porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado.” (I Jo 1.7). Referência à necessidade do trabalho de purificação do Espírito através da santificação, daqueles que nasceram de novo, para que se possa ter comunhão espiritual. Esta purificação é realizada não com base nos méritos dos crentes, mas na expiação realizada pelo sangue de Jesus que foi derramado na cruz. Entretanto, tal objetivo não será alcançado, sem o esforço do crente em santificação para andar na luz, que consiste na prática das boas obras e de tudo que se refere à obediência à vontade de Deus, aí incluída a obediência aos seus mandamentos revelados na Bíblia.

“E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro” (I Jo 3.3). Cabem os mesmos comentários relativos a II Cor 7.1e II Tim 2.21, apresentados anteriormente.

“Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.” (Mt 5.8). Palavras de Jesus que se aplicam aos que foram regenerados e têm sido santificados. O que é regenerado é santificado. Não há regeneração sem santificação. E não pode existir verdadeira santificação onde não houve regeneração. A purificação do coração é um trabalho realizado pelo poder de Deus quando pela fé aceitamos a Cristo, e que prossegue também pela nossa fé nele, enquanto nos dedicamos a viver de modo obediente a Deus. É Deus quem efetua em nós tanto o querer quanto o realizar, mas não faremos qualquer progresso em santificação sem que busquemos viver em conformidade com a Sua vontade.

Um crente autêntico é aquele que nasceu de novo do Espírito Santo. Sendo um genuíno eleito de Deus também será santificado pelo Espírito, e ainda que não faça grande progresso em santificação, a idéia da necessidade da santidade haverá de acompanhar toda a sua jornada terrena porque o mesmo Espírito que o regenerou é o mesmo Espírito que haverá de infundir no seu espírito que “Sem santificação ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14) porque a vontade de Deus em relação àqueles que transformou em seus filhos amados, por meio da fé em Jesus Cristo, é a santificação (I Tes 4.3) porque a santidade é a essência mesma da Sua natureza divina, e por conseguinte da nova natureza que recebemos no novo nascimento (regeneração). É por isso que os crentes são exortados a não deixarem de se reunirem para cultuarem a Deus e para se estimularem mutuamente ao amor e às boas obras (Hb 10.24,25).

GENETÓS ANOTEN (original grego de Jo 3.3,7) = gerado, nascido do alto, de novo

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